José Reinaldo: Dissipar a confusão, lutar já e sem parar por eleições diretas



Uma das frases mais carregadas de significado da literatura brasileira e muitas vezes citada por cronistas foi lavrada por Machado de Assis na sua genial obra Dom Casmurro. “A confusão era geral”, dizia, descrevendo uma das antológicas cenas do conflito emocional de Capitu.
Por José Reinaldo Carvalho (*)

Ajustando o tempo do verbo, poderíamos dizer que a confusão é geral, ao vivenciar o conflito político-ideológico – que para a militância abnegada e combativa não deixa de ser emocional também – em que estão engolfados setores da esquerda na busca de soluções para a crise atual.

Os partidos consequentes da esquerda, os setores progressistas e os movimentos populares que com estes marcham nas jornadas de luta contemporâneas, têm uma posição clara diante da crise em curso: imediata saída do usurpador Michel Temer do governo, rejeição às reformas regressivas da Previdência e das leis trabalhistas e realização de eleições diretas, já.

Esta é a única plataforma imediata que assegura a convergência e a unidade de ação de amplas forças políticas e do movimento de massas para encontrar uma saída democrática à profunda crise política, econômica, social e ética do Brasil, cuja origem está no caráter reacionário das classes dominantes, indissociável do governo golpista e usurpador de Michel Temer.

Não há desfecho previsível para a crise, mas um dos possíveis caminhos ainda é a continuidade do governo Temer. Ruinosa para o país, representaria a bancarrota nacional, a degradação ainda maior das condições de vida do povo, a liquidação das incipientes conquistas sociais e a mutilação da democracia. O golpe de Estado que afastou as forças progressistas do governo no ano passado abriu caminho para a instauração de um regime ultra-reacionário, pelo que há de se responsabilizar para sempre os partidos que o tramaram e lhe deram sustentação. O presidente usurpador, contando ainda com o apoio do presidente da Câmara e núcleos de direção de partidos como o PSDB, PMDB, DEM, em setores da mídia e do Judiciário, faz todo o tipo de manobras para se manter à frente do governo até o final do seu ilegítimo mandato.

As classes dominantes e seus agentes políticos, midiáticos e em setores do Judiciário apostam numa “saída” política sem Michel Temer, continuando, entretanto, as reformas antinacionais e antipopulares por este iniciadas e a política macroeconômica, no figurino traçado pela grande burguesia monopolista-financeira e os círculos financeiros internacionais. Esta saída não está ainda plenamente configurada porque não há consenso entre os diferentes setores das classes dominantes sobre o meio político e jurídico com que afastar Temer, nem sobre o nome para substituí-lo. Há também séria inquietação entre as forças de direita e centro-direita quanto às reações que, neste caso, sobreviriam do movimento popular organizado, que clama por eleições direitas já, movimento que pode ganhar força e amplitude. Sabem que o povo não teria paciência para suportar a substituição de um Temer por outro, apenas maquiado, imposta por um parlamento dominado por uma maioria golpista e desligada dos interesses nacionais e populares.

Nesse quadro de “soluções” em suspenso é que se tenta envolver as forças progressistas e de esquerda em manobras táticas que podem representar uma traição ou um suicídio. Buscar uma solução de consenso; pactuar a formação de um governo transitório que garanta a estabilidade política e a realização das eleições gerais de 2018; salvar a “política” por meio de um entendimento entre os ex-presidentes Lula e FHC, exercitar um novo tipo de coalizão, à moda de um parlamentarismo artificial, tendo por eixo o PSDB e o PT – são fórmulas que vieram a lume nos últimos dias, ao lado de estapafúrdias especulações sobre candidaturas a presidente e vice-presidente em eleições indiretas.

Para além de ser um crasso erro estratégico e tático, tais arrazoados contêm fantasiosas ilusões, sonhos e delírios como os que provocaram as lágrimas da doce e bela Capitu.

A esquerda tem experiência histórica e não deve ter complexos nem receios de examinar alternativas quando o país se depara com situações de impasse. É seu dever buscar saídas, com a condição de que sejam progressivas, virtuosas e levem a uma verdadeira acumulação de forças que a tornem suficientemente forte para enfrentar os decisivos embates vindouros. Não pode ser ingênua, nem se prestar a auxiliar o inimigo a encontrar saídas que inevitavelmente manterão intacto o iníquo sistema político antidemocrático, antinacional e antipopular.

Espantosamente, na mesma semana em que uma centena de milhar de pessoas foi a Brasília exigir a saída de Temer e a convocação de eleições diretas já, e em que os dois principais partidos da esquerda brasileira (PT e PCdoB) aprovaram em suas instâncias diretivas mais responsáveis resoluções políticas com o mesmo sentido, observa-se uma afanosa atividade paralela e diversionista de construção da alternativa das eleições indiretas, mediante as vagas promessas e as ilusões acima mencionadas.

O leitor de Machado nunca soube nem saberá se Capitu “traiu” Bentinho. Nós, outros, que vivemos hoje diferente transe, podemos, contudo, prever o destino histórico que nos espera se a esquerda embacar na nau dos insensatos das eleições indiretas. Quem, por convicções políticas e ideológicas, ostenta no peito a foice e o martelo ou a estrela vermelha, tem o dever histórico de mover um combate sem tréguas a essa manobra.

PS: Nesta data (27 de maio), há 15 anos, faleceu o camarada e amigo João Amazonas. Dentre milhares de episódios históricos de sua ação política que retenho na memória e nos cadernos de notas, relembro que poucas semanas antes, uma das suas últimas ações como presidente de honra do PCdoB – transmitira a presidência ao camarada Renato Rabelo, seis meses antes, em dezembro de 2001 – foi receber na sede nacional do Partido, em São Paulo, os companheiros Lula e Zé Dirceu, encontro no qual os comunistas asseguraram (naquela altura foi o primeiro partido a fazê-lo), apoio à candidatura de Lula à Presidência da República. O João não chegou a viver a vitória de Lula, mas a semeadura que fez da “unidade como bandeira da esperança” deixou valiosas lições.

(*) Jornalista, editor do Resistência, secretário de Política e Relações Internacionais do PCdoB